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OS 121 SEM-PERNAS QUE A POLÍCIA MATOU NOS COMPLEXOS DA PENHA E ALEMÃO

  • Foto do escritor: Revista Lugar de Todos
    Revista Lugar de Todos
  • 15 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

A megaoperação, nomeada “Operação Contenção”, realizada no dia 28 de outubro de 2025 teve repercussão mundial, chegando a grandes jornais, como o The Guardian, The Washington Post e El País (edição internacional). Todas tiveram uma mensagem em comum em seus textos: a operação mais sangrenta da história do Rio de Janeiro. Dessa forma, acredito que isso seja reflexo direto das ações desesperadas do Governador Cláudio Castro em vender a falsa mensagem de progresso da segurança pública fluminense, por meio de chacinas dentro das favelas, apenas para ganhar votos nas eleições de 2026. Esse marco histórico dá luz a dois principais furos das operações:  a interrupção da vida dos moradores dessas regiões e a ineficácia deste como sendo o principal método de combate ao crime organizado.

É fato que a liberdade de ir e vir nas periferias são interrompidas a todo momento, tanto pelo tráfico de drogas quanto pelo Poder Público, quando este decide fazer operação nos morros. Assim, a realidade de quem mora nas favelas em dia de operação é de insegurança e medo: acordar ao som dos tiros e cancelar ou atrasar qualquer compromisso que tenha para aquele dia. Dessa forma, um morador de 21 anos do complexo de alemão, região conhecida como loteamento, foi entrevistado  e relatou como se sente perante a essa violência e como o seu compromisso foi interrompido:  “Eu, normalmente, acordo seis horas”, “Nesse dia, eu acordei no susto, era umas 4:00-5:00h, com o som de bomba”, “Parecia que eu estava vivendo o que se vê em Gaza”. No entanto, ele perdeu o restante do dia 28, visto a magnitude que a operação teve.

Outra moradora da mesma localidade disse passar pela mesma situação, acordou assustada ao som de tiros às 5 horas da manhã e deixou de trabalhar  — ela leva e busca crianças da escola para arrecadar menos de um salário-mínimo no mês — ,além disso, faz curso de enfermagem, na qual foi interrompido até o fim da semana. Mas se engana quem pensa que a ruptura da rotina está apenas em deixar de ir trabalhar ou estudar, essa mesma moradora contou sobre uma operação anterior, em que os próprios moradores tiveram que lavar o sangue de um ferido na esquina da sua casa. Esse é um exemplo claro de que a violência se dá também de maneira psicológica dentro desses espaços. Agora, imagina você ter que limpar restos de órgãos e sangue de frente da sua casa. Como você ficaria depois desse dia?

Além disso, há uma outra vertente interessante a ser questionada, a operação é um método eficaz no combate ao crime organizado? A gente que vivencia isso dia após dia, não concorda. “No dia seguinte, o ‘movimento’ já estava lá”, essa é a fala de uma moradora da Vila Cruzeiro, região conhecida como Grotão, ao ser questionada se a operação havia dado certo. A mesma moradora afirma também que as operações são vazadas e que quem vive nesses lugares sabe e sente quando vai ter operação, “o ar muda”, ela completa. Sendo assim, mesmo que muitas vezes a intervenção policial seja vazada, nesse dia foi diferente, a polícia afirmou que só a movimentação dos policiais pelas redondezas já é um alerta para os criminosos, fazendo com que eles se escondam e fujam para outras localidades. Então, o questionamento que faço é: por que continuar fazendo operações dessa forma? Antes de se fazer operações como essas, não seria melhor ver a fonte das drogas e armas? a rota de entrada delas? Por que em uma operação de apreensão na casa do amigo de Ronnie Lessa, Alexandre Mota, não houve disparos, mas apreendeu 117 fuzis, enquanto no dia 28 de outubro foram 91 apreendidos e 121 pessoas mortas? Portanto, reflito que o governo está decidindo quem deve morrer e viver, o que é definido como necropolítica.

Eu, a pessoa que escreve para você, sou morador do complexo do alemão há 15 anos, minha infância e juventude se passaram por aqui, ou seja, já vivi inúmeras operações e me vi em situações um tanto quanto assustadoras. Por isso, acredito que operações como essa tenham um resultado negativo ainda mais íntimo. Na obra "Capitães da Areia", de Jorge Amado, o personagem Sem-Pernas retrata bem esse aspecto. Ele guarda um rancor tão violento por policiais, após ser torturado física e psicologicamente, que ao se ver em uma situação de ser preso novamente, ele prefere se matar, se jogando de um penhasco. Dessa mesma forma, ao se deparar com mais de 121 pessoas assassinadas no lugar em que você nasceu e foi criado, o medo de ser abordado por um policial corrupto (como os cinco que foram presos no dia 28/11, devido a crimes cometidos durante a megaoperação), ou o medo de você ser mais um estudante baleado a queima roupa, de maneira similar, sinto que tudo isso contribui para alimentar esse rancor e angústia semelhante ao de Sem-Pernas; é sufocante e só traz a sensação de insegurança.

Contudo, vale deixar claro que o tráfico tem que ser neutralizado e acabado. Morando em favela por toda a minha vida, sei que não há sensação pior do que andar por ruas limitadas por barricadas ou não poder exercer sua liberdade, seja ela qual for, por medo de que isso custe sua vida. Não há direito à cidade, ao meio ambiente urbano, para os moradores das favelas. Por sua vez, a forma como se faz isso deve ser repensada, o tráfico nas favelas representa apenas a ponta do iceberg.

Dessa maneira, seria um grande avanço se as pessoas entendessem a realidade de quem vive no morro. A violência e a segurança não se apresentam da mesma forma. A nossa voz não é escutada da mesma forma. As nossas demandas não são atendidas da mesma forma. Assim como o Rap da Liberdade ecoa nos becos das mais diversas favelas do Rio de Janeiro e do Brasil, quero que esses relatos sejam uma fonte reflexiva de como fazer um morador ser feliz e andar tranquilamente na favela onde ele nasceu.


Referências




Quem são os mortos em operação no rio; polícia do Rio divulga lista com 99 nomes identificados https://www.estadao.com.br/brasil/lista-com-o-nome-dos-mortos-em-operacao-no-rio-npr/



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