Editorial: o mapa e o território: narrativas que nos definem
- Revista Lugar de Todos

- 15 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 21 de dez. de 2025
Esta revista é resultado do trabalho coletivo desenvolvido por discentes de Metodologia em Educação Ambiental, disciplina oferecida pelo Departamento de Biologia Vegetal da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) como eletiva universal. Nossa composição é um retrato do próprio estado do Rio: vindos de diferentes cantos, trazemos no nosso olhar a diversidade de experiências e realidades que formam esse complexo tecido social. Os estudantes compõem classes sociais, raças e vivências bem distintas, o que trouxe uma rica sabedoria compartilhada.
Nesta primeira edição, voltamos nossa atenção para um evento que dominou as manchetes e as conversas em novembro de 2025: a megaoperação policial no complexo do Alemão e Penha.
O discurso oficial estabelecia um objetivo claro para a operação: conter a expansão territorial do Comando Vermelho. No entanto, ao analisar sua concepção e execução, questiona-se se este era de fato o propósito central ou uma narrativa para legitimá-la. Assim, o debate fundamental transita do “se” a operação era necessária para o “como” ela foi conduzida. Até que ponto a estratégia adotada garantiu a segurança da população? Quais os custos sociais, humanos e comunitários de uma ação dessa envergadura? As consequências na vida dos cidadãos comuns foram proporcionais a esse objetivo declarado? Além disso, é preciso compreender o meio ambiente para além de uma noção restrita às ciências da natureza. Uma visão mais ampla e integradora entende o ambiente como uma totalidade dinâmica, onde fatores naturais, sociais, culturais, econômicos e políticos se interligam (Layrargues e Lima 2011). Nesse sentido, discutir segurança pública exige reconhecer essa complexidade, já que as políticas de segurança afetam e são afetadas por todas essas dimensões da vida em sociedade. Ignorar essa teia de relações significa abordar a questão de forma fragmentada e insuficiente.
Por que falar sobre a operação em uma disciplina que aborda Educação Ambiental
O habitat humano é um conceito integral e abrangente estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU), principalmente a partir da Conferência de Vancouver de 1976 (Habitat I). Ele transcende a ideia simplista de moradia (o "abrigo") para englobar a totalidade do ambiente em que as pessoas vivem, trabalham e se desenvolvem.
Segundo essa visão, habitat humano é definido como:
"O conjunto de todos os elementos físicos, naturais e socioeconômicos que compõem o ambiente de vida das pessoas. Inclui a moradia e a infraestrutura (água, saneamento, energia, transporte), os serviços essenciais (saúde, educação), o emprego e o meio ambiente natural e as relações sociais que, juntas, determinam a qualidade de vida e o bem-estar da população em um determinado assentamento."
A ênfase da ONU é que a melhoria do habitat humano requer uma abordagem integrada que promova o desenvolvimento sustentável, a justiça social e a participação comunitária, combatendo a segregação e a precariedade.
Falar sobre uma operação policial de tal abrangência e fatalidade em uma disciplina de meio ambiente é essencial quando compreendemos o ambiente não como um cenário isolado da natureza, mas como o território onde a vida acontece em todas as suas dimensões sociais, políticas, econômicas e ecológicas.
A operação, ainda que tenha como objetivo declarado o combate ao crime organizado, gera impactos que ultrapassam a esfera da segurança e alteram profundamente o tecido socioambiental das comunidades atingidas. Ela redefine relações comunitárias, afeta a saúde mental da população, interrompe dinâmicas locais, gera deslocamentos, e muitas vezes degrada o espaço público e o senso de pertencimento. Ignorar esses efeitos é adotar uma visão fragmentada do “ambiente”, como se ele fosse apenas um conjunto de elementos naturais descolado das pessoas que o habitam.
Portanto, trazer esse debate para a disciplina de meio ambiente é um ato de coerência com uma visão integrada e crítica da realidade. É reconhecer que a justiça ambiental também se refere ao direito de viver em um território seguro, digno e livre de violências arbitrárias, um direito negado cotidianamente em certas partes da cidade.
A violência extrema e o estado de “guerra” urbana imposto por essas operações degradam o ambiente de vida das pessoas que vivem nas comunidades e isso inclui a interrupção de serviços básicos de saúde e educação, a dificuldade de ir e vir e também o impacto psicológico negativo, gerando muitas vezes depressão e ansiedade. Mega Operações dessa natureza expõem os moradores das comunidades a um risco à vida e à segurança desproporcionalmente maior do que o restante da sociedade. A alta letalidade nessas comunidades é um claro sintoma de que a vida desses grupos tem um valor inferior na política de segurança pública.
VERTENTES DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL CRÍTICA
Ao analisarmos a megaoperação à luz da macrotendência político-pedagógica crítica, como definida por Layrargues e Lima (2014), podemos observar que esta ação revela um conflito socioambiental que esta corrente teórica se propõe a debater e a transformar. Segundo Layrargues e Lima (2014), a crise ambiental não expressa problemas da natureza, mas problemas que se manifestam na natureza. Portanto, é impossível conceber os problemas ambientais dissociados dos conflitos sociais.
A abordagem crítica propõe um debate que ultrapassa as questões biológicas e questiona as relações de poder que definem quem tem o direito de viver com dignidade e segurança ou não. A violência e a vulnerabilidade social nas comunidades são para a educação ambiental crítica, faces da mesma moeda onde os ônus sociais e ambientais recaem sobre os mais vulneráveis.
Esta revista é um convite à reflexão. Convidamos você, leitor, a atravessar conosco as linhas tênues entre a garantia da ordem e a violação de direitos, entre a necessidade da segurança pública e o respeito às comunidades.
Referências
LAYRARGUES, Philippe Pomier; LIMA, Gustavo Ferreira da Costa. As macrotendências político-pedagógicas da educação ambiental brasileira. Ambiente & Sociedade, São Paulo, v. 17, n. 1, p. 23-40, jan.-mar. 2014.
Foucault, M. A Ordem do Discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Edições Loyola. Belo Horizonte, 1996.




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